Sou trigo e joio

“Jesus propôs-lhes outra parábola: “O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?” “Foi algum inimigo meu que fez isto” – respondeu ele. Disseram-lhe os servos: “Queres que vamos arrancá-lo?” Ele respondeu: “Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.”
Mt 13:24-30

Por vezes sinto que a minha vida é como um campo de trigo cheio de boa semente e de joio. No meio de bons propósitos, (algumas) boas acções, desejo ardente de viver em amor e amar os outros, há muito joio pelo meio: há listas infindáveis de coisas para fazer, há pessoas de quem gosto menos ou que me provocam mal-estar, há muitas ocasiões em que não consigo amar. Este cinzento em que vivo deixa-me na maior parte das vezes insatisfeita, às vezes culpada, e com uma incapacidade de agradecer o bom que vivo e uma vontade irreal de acabar com os joios da minha vida: de repente tornar-me “sempre boa”, estar “sempre” em comunhão com o Senhor, ser capaz apenas de actos de amor, acabar com as situações de stress na minha vida e “afastar” as pessoas que às vezes me magoam ou não são como sonhei.

Pois bem, esta minha vida é terreno sagrado, é campo de Deus, onde Ele se manifesta na minha vida e através de mim. Nem tudo (ou menos do que imaginei) escolho na minha vida. Escolhi o meu marido, escolhi algumas das minhas amizades, escolhi em parte a minha profissão (algo condicionada acredito). Mas não escolho como vão ser os meus filhos, como vou morrer, as pessoas com quem trabalho ou que se atravessam na minha vida. Escolho sim fazer parte do plano do Senhor e contribuir o melhor que posso para o seu Sonho. Escolho sim alimentar a minha relação com o Senhor para que a nossa comunhão vá crescendo. Mas o melhor que posso não é o perfeito, ou só trigo, ou um ideal não real que trago dentro de mim. O melhor que posso é feito no meio da minha vida real com os cansaços e desgastes diários, mas posso tentar fazê-lo com os olhos postos no Senhor para que aproveite pequenas oportunidades para amar. Algumas vou desperdiçar, já sei, mas outras vou agarrá-las. E ter a certeza que no fim o Senhor guardará no seu celeiro tudo o que de trigo fui. Sabendo que muito joio também cresceu. Essa e a minha vida real na qual o Senhor se manifesta.

Amen.

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